O texto, assinado pelo editor de engenharia Ron Wakefield, analisava em profundidade as características técnicas do novo veículo, revelando os bastidores de sua criação com extraordinária riqueza de detalhes. Boa parte da análise, como não poderia deixar de ser, era dedicada ao novo e surpreendente motor de 12 cilindros em linha, uma configuração que havia sido utilizada pela última vez na década de 1930 pela extinta marca francesa Voisin.
Segundo a matéria da Road & Track, o projeto do XK-EE teve início quando a Jaguar chegou à conclusão de que um motor de grande cilindrada seria o meio mais indicado para atender às normas antipoluição cada vez mais rigorosas nos EUA, seu principal mercado de exportacão. Um V-12 chegou a ser cogitado, mas a idéia logo foi descartada por razões de custo e de complexidade mecânica. Assim, a empresa decidiu desenvolver uma nova unidade motriz a partir da junção de dois blocos do tradicional seis em linha usado no E-type, daí resultando um motor de 12 cilindros em linha e 8,4 litros de deslocamento.
Ron Wakefield ressalta que a Jaguar não mediu esforços durante o processo de desenvolvimento de seu novo propulsor:
Com sua conhecida meticulosidade, os engenheiros da Jaguar fizeram questão de que o novo motor tivesse seu bloco fundido em uma única peça. E aproveitaram a oportunidade para promover aperfeiçoamentos na circulação de água, uma medida necessária já que pela configuração do chassis não haveria espaço disponível para um radiador maior que o original do XK-E. (...)Ao longo da matéria, todos os demais aspectos da técnica utilizada na construção do novo automóvel são apresentados de forma igualmente exaustiva. Nada escapa ao escrutínio de Wakefield. Sua análise é tão completa e passa tanta credibilidade que o leitor é tentado a levar a sério tudo o que diz - por mais surreais que sejam as imagens do carro, com seu capô mais comprido que o nariz do Pinóquio.
O texto de Wakefield termina como começou, com o mesmo tom objetivo e isento que caracterizava os testes e as avaliacões da Road & Track daquela época. A pegadinha só é revelada na última página da revista: o tal XK-EE não era obra da Jaguar, mas sim de um californiano chamado Ali Roushan, que pela cara devia ser um tremendo gozador.
A revista não fornece maiores informações sobre Roushan nem sobre a verdadeira história de seu inacreditável (no sentido literal da palavra) XK-EE. O mistério só faz aumentar a graça da pegadinha, que pelo jeito contou com o nihil obstat da própria Jaguar.
Se um caso como esse acontecesse hoje, seria fácil enxergar por trás dele uma estratégia de marketing especialmente desenhada para gerar buzz. Mas como estamos falando de algo que aconteceu 41 anos atrás, dá para dizer sem medo de errar que tudo não passou de uma saudável brincadeira. Já não se fazem mais revistas nem fabricantes de automóveis como antigamente...
Imagens: revista Road & Track, edição de janeiro de 1971



















